Por Anielle Morais*
Sempre digo que o bom jornalismo se faz com/de personagens. Muitos dos meus colegas defendem que
personagens exemplificam fatos. Sim! Talvez, ao invés da palavra exemplificam alguns preferissem usar personalizam para definir o papel das
fontes no jornalismo. Também! Mas penso que personagens têm vida (própria)
que vai além dos fatos que escolhemos narrar. A pauta justifica em 15
linhas a história que o jornalista deve contar. Os complementos ficam, frequentemente, por
conta das fontes que revelam, em duas ou três linhas, as aspas que faltam
para preencher a lacuna dos dados testemunhais. Um lugar comum que a maioria de
nós, senão todos, já caímos em algum momento da nossa carreira. Subestimamos, embora
com elegância, o entrevistado, a quem responsabilizamos pelo uso de adjetivos e
emissão de opinião - altamente condenável para os profissionais que estão fora do jornalismo opinativo.
Perguntas procuram por respostas. Mas em alguns casos, perguntas devem mesmo servir como motores para o início de um diálogo que, conforme a disposição do entrevistado, nos levam para além da história que a pauta apresenta. Aprendi, tanto no jornalismo quanto na vida, que uma boa história nasce do desconhecido, daquilo que é considerado, a princípio, incomum, portanto, indiferente. Na investigação de outro ser humano (e eu sou das que acreditam que todo jornalismo é investigativo) o bom mesmo é ser surpreendido por um novo ângulo, um ponto de vista diferente, enfim, ser surpreendido pelo que a pauta encarcera fora dela.
A especialização das fontes, cada vez mais natural entre os profissionais e cada vez mais requerida por jornalistas, nos oferece conforto, pois garante a qualidade do conteúdo que transmitimos aos nossos leitores/telespectadores/ouvintes. Entretanto, a especialização pode nos levar a especializar perguntas, não oferecendo espaço para que o ser humano, por trás do especialista, nos introduza por novas percepções, novas histórias, por diferentes caminhos.
A busca pela realidade inquestionável há muito cedeu espaço para a aceitação de que nós somos, genuinamente, profissionais que contribuem para reproduzir o mundo em palavras, imagens e sons. Ao representar a realidade, estamos, de certa maneira, modificando o contexto que nos cerca, ou seja, a própria realidade. E nesse caso, melhor que mudança venha através da transgressão da pauta do que pelo cumprimento arbitrário dela, pois, dessa forma, conhecemos mais sobre seres humanos.
* Professora dos cursos de Comunicação Social/Jornalismo e Direito da
Faculdade Objetivo.


