“O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”. (Mateus 15.10)
A bíblia diz ao homem que tudo o que somos e tudo o que existe no mundo surgiu através de palavras. Uma palavra qualquer, por mais insignificante que possa parecer, seja ela dita ou escrita tem o poder de exaltar o destruir o homem em questões de segundos, tudo depende do tom de voz ou do contexto que a acompanha.
Não é de hoje que brincadeiras entre colegas de escola rotulam pessoas magras de mais, ou gordas de mais, muito inteligentes ou que não conseguem aprender nada, o fato é que nunca se está satisfeito com a condição física ou psicológica do próximo e a partir de então guiados pela insatisfação que temos com nós mesmo começamos a criticar o outro.
Priscila sempre foi perseguida pelas brincadeiras inocentes dos coleguinhas de escola, os anos iam passando as “brincadeiras” aumentando e a garota começou a se excluir, mas quando não precisava mais aguentar as brincadeiras na escola, passou a ter que lidar com elas em sites de relacionamentos, as ofensas ultrapassaram as fronteiras e passaram a ganhar uma proporção maior.
Na internet as brincadeiras de mau gosto ganham seguidores, não há como se esconder quando a ofensa passa a ser virtual tudo fica mais rápido e mais doloroso para quem sofre.
Se fossemos definir aqui o cyberbullying como uma brincadeira, poderíamos exemplificar da seguinte forma: os bullys (pessoas que praticam as agressões) são as “crianças” que brincam, e os bullieds (pessoas que sofrem as agressões) são os brinquedos.
Para Priscila a pior agressão na vida de um bullied, é acordar e saber que vai acontecer exatamente a mesma coisa hoje. E amanhã também. E o resto do ano.
E o mais intrigante é saber que inúmeras pessoas sofrem por este tipo de agressão, existem vidas, mentes brilhantes que se excluem da sociedade por que alguém lhes disse que elas não são boas o suficiente para estarem ali. Mas afinal quem somos nós pra julgar a eficiência, a beleza ou a inteligência do próximo?
Pessoas são como remédios, na maioria das vezes aquele que é ótimo para minha dor de cabeça, não faz efeito algum pra você.
E a gente só percebe a intensidade do mal que fazemos ao próximo depois que passamos a sofrer o que antes praticávamos, essa é a realidade de C.E, desde pequeno o menino já mostrava se destacar entre os garotos tinha uma grande capacidade de liderança, e não perdia tempo quanto o assunto era caçoar de gordos ou magros, feios ou que usavam óculos, não importava qual fosse o motivo ele sempre encontrava uma brecha pra “zoar” alguém.
A vida do garoto foi tranquila e popular até a 8ª série, quando mudou de escola. Alunos novos, uma realidade bem diferente e as “brincadeiras” que antes ele lançava a qualquer um que passava a sua frente, começaram a ser direcionadas a ele. Experimentar o outro lado da moeda não foi fácil, era como se o garoto estivesse chupando uma laranja lima, doce no início mais no final o gosto amargo é insuportável.
- Acreditem ou não, mas me arrependo demais de varias atitudes que tive, não me esqueço de nenhum colega da época que aterrorizei. As lembranças me perseguem constantemente e quando algo de mal me acontece, atribuo a esse passado. Tudo tem um preço.
O preço de um insulto, muitas vezes é insignificante quando comparado ao que os insultados pagam, muitas pessoas que sofrem com o cyberbullying tentam se matar. É degradante saber de tudo isso e não ter nada que se possa fazer pra ajudar, ou quase nada, e é por isso que a nossa amiga Priscila reaparece nessa parte da história.
Por três vezes ela tentou se matar, como já se pode ter percebido felizmente ela não obteve sucesso em nenhuma das tentativas, mas diz que já encontrou uma maneira bem mais eficiente e divertida pra acabar com sua própria vida, agora é só esperar chegar ao fundo do posso novamente.
- Tentei uma embolia pulmonar e dois envenenamentos, mas a parte ruim (para um suicida, pelo menos) é que o vegetarianismo te deixa saudável por demasia, capaz de filtrar 5 ampolas de ar (como pode?!) ou processar plantas venenosas. Não tenho dúvidas de que tentarei novamente, mesmo porque descobri maneiras bem mais divertidas... e instantâneas. É questão de tempo até minha vida se tornar um inferno novamente.
O pior é que a gente se pergunta
- Cadê a família dessa garota? Pai, mãe, alguém tem que perceber o que se passa e tomar atitudes pra que isso tudo chegue ao fim.
O problema é que na maioria das vezes os pais são negligentes em relação a esses casos, chegam até a pensar que o filho está dando muita importância a algo irrelevante. Isso é o que mais incomoda Priscila.
- Ninguém dá a mínima, só assiste acontecer, ainda acobertam com absurdos como "é brincadeirinha de criança, liga não" pros agressores pode ser uma brincadeira, mas o agredido está realmente sendo destruído ali.
Se fossemos relatar aqui as histórias de todas as pessoas que sofreram com o cyberbullying com certeza gastaríamos centenas de folhas e nos decepcionaríamos mais a cada história, afinal direta ou indiretamente todos nós somos cúmplices desta prática, porque se calar não ajuda que sofre, mas com certeza que pratica.
As histórias de cyberbullying na maioria das vezes começam na escola, as intrigas, os xingamentos começam ali, em um ambiente onde as crianças e adolescentes deveriam ser educadas, mas como diz o velho ditado educação vem de berço, não adianta colocar um filho na escola a fim de que ele receba educação sem darmos o exemplo em casa, os filhos na maioria das vezes são espelhos daquilo que vivenciam no lar.
Mas enfim, eles se conhecem na escola, não se dão bem, alguém sofre com o mal que o outro pratica e ai se encontram em Orkut, Facebook, Twitter ou qualquer outro site de relacionamento da vida, e lá as agressões tomam um proporção bem maior, existem mais pessoas vendo você ser humilhado, e por mais que a maioria das pessoas não te conheça aquilo te envergonha e quem te humilha fica mais exaltado a cada post.
Mas nem todas as histórias começam assim
Igor conheceu uma garota em uma comunidade do Orkut, ela morava no interior do Rio de Janeiro e ele em São Paulo capital, os dois começaram a conversar trocar mensagens de amor, vivenciou um namoro virtual, até Igor resolver visitar a garota.
A primeira visita foi ótima os dois passaram um fim de semana inteiro junto e mantinham aquela certeza de que seria um relacionamento sério. O garoto voltou pra casa e algum tempo depois resolveu novamente visitar a namorada, dessa vez o passeio seria um pouco mais especial, pois eles passariam o aniversário de Igor juntos, mas a recepção não foi tão calorosa quanto à de antes.
A menina dava mais atenção aos amigos do que ao namorado, saíram pra jantar e a turma toda se divertia tomando várias doses de bebidas alcoólicas e desligando os padrões de energia das casas por onde passavam.
Em uma dessas brincadeiras um casal presenciou a cena e enquanto todos corriam a namorada de Igor foi agarrada por uma rapaz o garoto tentou protegê-la e acabou levando vários chutes.
O encanto do casal acabou ali, Igor foi embora e ai começou a ver histórias de sua vida pessoal serem espalhadas pelo espaço virtual de uma maneira espantosa, era sua ex-namorada, tudo o que o garoto já havia passado de mais constrangedor estava sendo exposto pra que tivesse interesse em ver. O resultado disso? O próprio Igor responde.
- Depois daquilo, eu comecei a entrar em pânico. Cheguei a chorar inúmeras vezes e já me surtei inúmeras vezes. Enfim... Depois de tudo isso que aconteceu comigo, peguei um trauma forte de mulher. Não consigo mais me relacionar com ninguém do sexo oposto.
Enfim, a tecnologia avançou o caminho pro crime ficou mais sofisticado, e as pessoas que sofrem continuam sem amparo.
No Brasil ainda não existe uma lei específica para enquadrar os autores de cyberbullying, atualmente os casos são enquadrados no código civil como crimes contra a hora, calúnia e difamação.
Os três estão previstos como crimes no Código Penal Brasileiro, nos artigos 138, 139 e 140.
As ofensas e os ofensores do bullying virtual também podem ser enquadrados como crimes de falsa identidade, já que na maioria das vezes os agressores usam fakes (se passam por uma outra pessoa) para praticar as ofensas. Também se atribui a crime de preconceito por raça, etnia, sexo, religião, aparência física, idade, etc. Estes crimes são previstos no artigo 307 do Códico Penal, também na Lei Federal nº 8.069/90 artigo 241.
Atualmente no Brasil somente o estado do Rio Grande do Sul possui uma lei de combate ao bullying, inspirado nessa lei o Deputado Federal Carlos Vieira da Cunha do PDT/RS, apresentou à câmara o Projeto de Lei 5.369/09 que visa instituir um programa nacional para evitar esta prática, neste programa o Ministério da Educação seria responsável por disseminar e coordenar trabalhos com o intuito de combater o bullying e o cyberbullying.
O projeto também obriga dirigentes de estabelecimentos de ensino e de recreação a comunicar o Conselho Tutelar sobre os casos de bullying e as providências adotadas para conter o abuso.
O Deputado Federal Fabio Faria (PMN/RN) também apresentou à câmara o projeto de lei 6.935/10 que visa incluir a prática do bullying na relação de crimes contra a honra, prevendo detenção de um a seis meses e multa para o agressor.
Como no Brasil a maior idade penal é de 18 anos a pena seria aplicada nos casos de intimidação cometidos por adultos.
Ainda de acordo com o projeto a pena irá aumentando de acordo com os agravantes do crime, como no caso de violência física ou em alguns casos até a morte do agredido.
Antes de seguir para o plenário o projeto do deputado Fábio faria será analisado pelas comissões de Segurança Pública, Combate ao crime Organizado, de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Atualmente quando alguém é agredido por meio da internet o mais indicado é guardar os e-mails e mensagens que recebe, sem apagar o remetente, uma dica é utilizar a função PrtSC SysRQ do computador e depois colar a imagem no Paint, em seguida é possível imprimir toda a página sem perder nenhuma parte. Com as provas em mãos o agredido deve procurar uma delegacia mais próxima e registrar um Boletim de Ocorrência.
Uma pesquisa divulgada pela Symantec, empresa da área de segurança dos Estados Unidos revelou que cerca de 80% das crianças brasileiras já tiveram experiências negativas na internet, 46% delas começaram a sentir medo da internet depois do incidente e 39% perderam a confiança no ambiente on-line.
A pesquisa foi feita com mais de sete mil adultos e 2 mil e 800 crianças e adolescente entre 8 e 17 anos em 14 países do mundo.
O levantamento revelou que nas crianças brasileiras essa experiência gera três tipos de sentimentos: preocupação, medo e perda de confiança na internet.
De acordo com o levantamento 87% dos entrevistados buscariam apoio em um adulto caso fossem ameaçadas fisicamente, 84% delas não diriam a um adulto caso estivessem sendo chantageadas ou ameaçada e 71% reportariam algo suspeito ou inapropriado.
A maioria dos pais se dizem preocupados com os filhos em relação a incidentes na internet, e se dividem quanto a reação que tomariam caso o filho sofresse algum tipo de agressão na web, 33% disseram que denunciariam o caso à policia e 31% conversariam com o agressor ou com seus pais se for o caso.
O importante é que os pais passem para os filhos que eles são seu porto seguro e que qualquer problema por mais insignificante que possa parecer terão apoio de quem os ama, manter um diálogo aberto com os filhos é o primeiro passo para evitar sofrimentos desnecessários.
Por mais que as medidas para aqueles que sofrem possam parecer escassas e desesperançosas, vale à pena esperar, revidar nunca é o caminho acabar com a própria vida menos ainda. Pode até ser que já tenham te convencido de que sua existência é insignificante demais para que alguém sinta sua falta, mas você existir é maior prova de quão grande é sua importância para o mundo.
E como este texto começa com uma passagem bíblica que de forma singela resume tudo que aqui foi dito, eu o encerro dizendo que “O choro pode durar todo uma noite mas a alegria vem pela manhã.” (Salmo 30.5).
Por Joice Naves

